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Para
o padre colombiano Leonel Narváez, este analfabeto funcional em que se
converteu o ser humano é, em grande medida, o responsável pelos ciclos
de ressentimento e violência em que vivem imersas diversas sociedades.
Narváez é um dos criadores da Fundação para a Reconciliação, cuja sede
fica em Bogotá.
Através
de sua experiência com comunidades colombianas, quenianas e de outras
latitudes, e com a ajuda de especialistas interdisciplinares das universidades
de Wisconsin, Harvard e Cambridge, o teólogo e sociólogo criou as Escolas
do Perdão, hoje espalhadas pelo mundo e ganhadoras do Prêmio da Paz da
Unesco.
Em
outubro será realizado o encontro internacional das Escolas do Perdão,
em um antigo forte militar na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro. Ali,
onde ainda permanecem canhões de guerra, 150 pessoas se reunirão para
compartilhar suas experiências na pedagogia da compaixão, que busca solucionar
o problema do analfabetismo emocional que, segundo Narváez, é uma das
principais causas da violência no mundo. Como preâmbulo do encontro, o
teólogo falou sobre reconciliação ao Comunidade Segura.
Como
nasceram as Escolas do Perdão? Trabalhei durante 10 anos em Caguán
– zona de influência do grupo guerrilheiro Farc ao sul da Colômbia – e
lá desenvolvi a experiência dos territórios de paz com a guerrilha e as
comunidades. Íamos a uma localidade, nos reuníamos com as pessoas, fazíamos
um sancocho de olla (passeio rural para cozinhar em uma panela enorme
uma sopa tradicional camponesa à beira do rio) e resolvíamos amigavelmente
os problemas. Fazíamos pactos e declarávamos a localidade um território
de paz.
Como
funcionam as Escolas do Perdão? Depois desta experiência prática e
da elaboração teórica em Harvard, onde fiz o doutorado, Antanas Mockus
nos chamou para aplicar o que sabíamos em 60 bairros de Bogotá. A Escola
do Perdão é um treinamento por que passam as pessoas ao longo de 80 horas
divididas em 10 sessões. Cada pessoa chega com um episódio em sua vida
que quer perdoar. Supõe-se que, ao fim desse treinamento, devem ter a
capacidade de perdoar. Eles recebem um diploma que tem o objetivo de os
relembrar que são multiplicadores do perdão e da reconciliação.
Onde
estão localizadas hoje as Escolas do Perdão? Em muitos lugares do
mundo: Canadá, Estados Unidos, México, República Dominicana, Venezuela,
Peru, Equador, Bolívia, Chile, Uruguai, Serra Leoa, Libéria, África do
Sul, Espanha, Itália, Israel e Brasil. No Brasil temos Escolas do Perdão
em Minas Gerais, Bahia e Rio de Janeiro. Inclusive, estamos trabalhando
um curso acadêmico com a Universidade de São Paulo e com a PUC do Rio.
Em
que consiste esse curso? Ensinamos a manejar a memória ingrata, ou
seja, a memória que leva a vítima de volta ao momento da ofensa, alimentando
seu rancor, ressentimento e desejo de vingança. Ensinamos como anular
esses sentimentos. Por exemplo, no caso de um cônjuge infiel. Durante
as 10 sessões trabalhamos o caso e, no fim, a pessoa deve ter ferramentas
para superar o ressentimento. É como uma terapia de grupo, pois desde
o início a pessoa escolhe alguns companheiros e formam um grupo fazendo
um pacto de total confidencialidade.
O
perdão implica em reconciliação? A ideia é que se chegue a uma reconciliação,
mas o perdão nem sempre leva a ela. O que se consegue com o perdão é bloquear
o desejo de vingança e a escala social. Essa já é uma grande mudança em
termos de violência.
O
que o senhor acha do processo que se realizou com os paramilitares na
Colômbia? Existem dois lados. O positivo é que 53 mil pessoas entregaram
as armas (de diversos grupos, não só paramilitares). O governo fez um
esforço enorme para reintegrar essas pessoas e creio que o fez bastante
bem. Por outro lado, penso que as elites do país não se entregaram. A
sociedade está rachada e de algum modo pensa que a reintegração é só para
os "de baixo". O tema da reintegração deve ter implicações políticas importantes.
Ainda existe muita raiva entre os líderes políticos e isto pode ser perigoso
porque gera outro tipo de exércitos subversivos. Isto foi o que aconteceu
com as Farc e os paramilitares: nasceram com o desejo de organizar-se
para a vingança. Então, esse exercício de reconciliação na base também
tem que ser feito em cima.
A
Colombia está preparada para um grande perdão nacional? Eu acredito
que a violência na Colômbia não se deve tanto à exclusão como aos rancores
acumulados ao longo de décadas e que não pudemos superar. Nós temos uma
idéia de como trabalhar isso: ter centros de reconciliação em todos os
bairros - assim como existem postos de saúde. Um lugar em que as pessoas
possam superar esta cultura de vingança e levar isto da base para a elite,
pois o perdão tem que tomar dimensões políticas. Nas palavras da escritora
Ana Arndt, "o perdão não é um recurso religioso, mas uma atitude política.
E
isto vale para todas as culturas? O perdão é uma necessidade universal.
No entanto, falar de pedagogia do perdão tem uma desvantagem em certos
ambientes pois é vista como uma proposta cristã. Mas tratamos disso na
pedagogia do auto-cuidado, é muito bem recebido em ambientes culturais
não cristãos. Resumindo, estamos falando de saúde emocional e de reconciliação.
É correto, então, dizer que os humanos temos a capacidade heróica de perdoar
o imperdoável. Sim, e comprovamos isso todos os dias em nosso trabalho
com vítimas da violência. Elas entendem o que é perdoar e são capazes
de fazê-lo. Mas perdoar não é esquecer nem impedir o trabalho da lei.
É um exercício pessoal de destilar o veneno. Ao entender que ao reciclar
venenos estamos causando danos a nós mesmos, o ato de perdoar se converte
em um exercício de saúde pessoal.
E
como é possível perdoar sem esquecer? Um dos temas mais difíceis do
perdão é o manejo da memória. A mente vive constantemente recordando.
Para mudar isso, é necessário fazer um retreinamento cognitivo. É trágico
quando uma pessoa não perdoa porque está amarrada ao que ocorreu, escrava
do passado. Por isso, o Nobel da Paz, Desmond Tutu, dizia que "sem perdão
não há futuro". É o que pode acontecer, por exemplo, às comunidades africanas
ou indígenas. Claro que têm razão em sentir os danos que sofreram e é
claro que têm direito à justiça, mas também têm direito a ter um futuro.
Para elas, viver no passado é ficar sem futuro.
E
como se faz esse processo? Ajudamos as pessoas a criar novas narrativas,
novas linguagens para transformar o que lhes aconteceu através da música,
do canto, do conto. É a partir desses exercícios que se transforma o passado.
Mas o problema da memória ingrata é que ela nos leva à ofensa sofrida
de vez em quando e nos faz sentir o que passamos de maneira repetitiva,
gerando o ressentimento. Este em qualquer momento pode se converter em
desejo de vingança.
Todo
ressentimento leva ao desejo de vingança? O desejo de vingança é o
mais comum nos seres humanos e, quando se passa a executar a vingança,
se dá a escalada da violência. Isto pode acontecer com qualquer um. Existe
todo tipo de vingança, mesmo as mais sutis. O Banco Mundial, por exemplo,
descobriu que um de seus problemas internos é que as pessoas não sabem
resolver seus conflitos. Então, há uma cadeia de pequenas vinganças: danificar
o documento de outro, não assistir a uma reunião, sabotar a apresentação
de alguém.
Isso
é inerente ao ser humano ou é algo que se aprende? Eu defendo que,
de algum modo, a sociedade nos condiciona e nos obriga a achar que o ser
humano é essencialmente bom. Não podemos negar que existem alguns elementos
da natureza humana que podem nos empurrar para a violência, mas tudo depende
da formação sócio-emocional que recebemos na família e na escola e esses
locais é onde menos se faz educação sócio-emocional. A escola é um caldo
onde se cultiva a violência, se ensina às crianças a competir, mas não
se ensina sobre a bondade, o afeto e o amor.
Como
se dá a passagem edo perdão para a reconciliação? Enquanto o perdão
é algo de uma pessoa consigo mesma, a reconciliação é abrir um caminho
até o ofensor. O mais bonito é que a reconciliação começa geralmente pela
parte ofendida. O perdão é um presente ao outro, um chamado para a bondade.
Quando alguém me ofende, o mais bonito é que quem tem o poder de perdoar
sou eu.
O
que deve ser feito durante os processos de perdão e reconciliação tanto
individuais quanto coletivos? Deve haver verdade, justiça, pacto e
celebração. A verdade não é só do ofendido, que normalmente acredita ser
o detentor único da verdade. A verdade é também do ofrensor. Se constrói
uma nova versão afirmativa da verdade. Por outro lado, no caso de um crime
de lesa humanidade, por exemplo, acredito que toda a verdade – com os
detalhes mais dolorosos, como a forma com que uma pessoa foi torturada
– deve ser conhecida apenas pelos juízes. Aos familiares da vítima interessa
saber quem cometeu o crime, porque o cometeu e onde está o corpo. Do contrário,
se corre o risco de cair em um processo "revitimizador" que faz com que
a crueldade do fato aumente o ciclo de raiva e rancor.
E
quanto à justiça? Nós acreditamos na justiça restaurativa e não na
justiça punitiva, pois as prisões são escolas de crime. Além de extremamente
caras, as penitenciárias são foco de corrupção do Estado e têm pouco sucesso
no seu propósito de dissuadir as pessoas a cometer crimes. Existem outros
modelos de justiça com melhores resultados como o dos indígenas colombianos,
por exemplo. Eles não têm prisões, acreditam na reintegração de seus criminosos.
E
qual é a importancia do pacto? É fundamental, pois é o compromisso
público de que uma ofensa não vai se repetir.
E
a celebração? É ritualizar esse pacto. O ritual eleva as pessoas a
níveis transcedentais e isso deixa mais marcado o compromisso. Por exemplo,
o ritual de entrar na igreja com toda a parafernália, dá muito mais solenidade
a um casamento do que casar-se em dez minutos em um cartório. É apenas
um exemplo para mostrar que o público, o solene, o sagrado compromete
mais. E o sucesso desses rituais está demonstrado nos processos com desmobilizados
na Colômbia.

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