06/05/09 - São Paulo
- Medos que nos assolam.
Encontro promovido pelo
Sesc e pela USP conclui que os temores urbanos freiam o avanço da ética
no convívio humano e reforçam uma cultura de intolerância e violência.
“Já foi falado que os problemas
de intolerância estão no coração e na mente das pessoas. Mas eles estão
também nas normas e nas leis”, alertou o urbanista Jorge Wilheim, ao iniciar
sua participação na mesa-redonda “Diversidade e Convivência na Cidade”,
durante o Colóquio Internacional sobre Tolerância e Direitos Humanos:
Diversidade e Paz, realizado pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) e
pela Universidade de São Paulo (USP), no final de abril, em São Paulo.
Wilheim seguiu destacando
que estamos nas cidades porque queremos conviver. “Quando me sinto seguro?
Quando há pessoas nas ruas. Se as ruas estão desertas, sinto medo”, continuou
apontando que as cidades são resultado da evolução da barbárie para a
civilização. “Agora, precisamos ter cuidado para não fazermos o caminho
de volta.”
O urbanista chamou a atenção
para a cultura de medo que estamos alimentando, pela qual o espaço público
está deixando de ser visto como lugar de socialização e passando a ser
sinônimo de perigo: “Fala-se muito em tirar as crianças das ruas, mas
não. As crianças deveriam poder brincar em ruas tranquilas, estar mais
umas com as outras. Esse convívio é fundamental”.
O crescimento dos cidadãos
isolados fisicamente em espaços que os separam de acordo com traços culturais
e sociais foi apontado por mais de um participante do encontro como uma
causa importante da intolerância e violência entre as pessoas. Até mesmo
as escolas públicas, espaços idealizados para diminuir as diferenças,
enfrentam problemas de aceitação e convívio.
“As escolas precisam abrir-se
para diferentes formas de pensar, partindo do saber de cada um. É importante
mostrar de onde vem determinado conhecimento, onde é aplicado, para que
serve”, declarou Darlinda Moreira, educadora de Portugal que participou
do colóquio. Ela destacou o caso das crianças ciganas que têm uma maneira
peculiar de realizar as operações matemáticas. Sua forma de raciocínio
não era valorizada nem mesmo aceita, embora fosse correta. Isso é um reflexo
da própria intolerância quanto à cultura cigana na Europa.
Em geral, teme-se aquilo
que não é conhecido, que é diferente. Como bem demonstrado no caso da
pequena cidade de Winston Parva (nome fictício), no sul da Inglaterra,
estudada por Norbert Elias e John Scotson, onde os que chegavam de fora
eram apelidados de outsiders e vítimas de boataria e maledicências por
parte dos já estabelecidos na localidade.
Por Neuza Arbocz (Envolverde)
/ Edição de Benjamin S. Gonçalves (Instituto Ethos) |